A última que morre

Uma ponte na Coreia do Sul tem falado com as pessoas, desencorajando-as a cometer suicídio. Sim, uma ponte falando. Lembra um pouco o conto Compreensão, do Orígenes Lessa, no qual o viaduto também conversa; mas enquanto na história o diálogo é com o homem que impediu um suicídio (e um tanto irônico, diga-se), em Seul a ponte fala diretamente com quem pensa em dar cabo da vida.

A campanha é excelente: há tempos sabe-se que existem lugares preferenciais para o suicídio. A ponte Golden Gate, em São Francisco, é o maior exemplo: trata-se do ponto de onde mais as pessoas se jogam para a morte em todo o mundo, o que comprova que em parte o componente contagioso desse comportamento. Mas além do contágio há a questão do acesso fácil: a disponibilidade de meios letais é também sabidamente um fator de risco. Dão testemunho disso os casos históricos de redução nas taxas de suicídio após uma mudança no fornecimento de gás no Reino Unido (de um fatal para um não fatal) e o banimento de pesticidas muito venenosos no Sri Lanka. Não é coincidência, portanto, o fato de que nas cidades onde há pontes altas as pessoas se matam mais do que nas onde não há.

Percebendo isso – e não querendo abrir mão das pontes – simplesmente passamos a construir barreiras impedindo as pessoas de pular. Funciona: fica difícil se matar, as taxas de suicídio diminuem. E não apenas na hora – alguém poderia pensar que os suicidas simplesmente mudam de método, mas estudos comprovam que quando uma barreira é erguida numa ponte a incidência global de suicídio diminui. Mais ainda: acompanhando cerca de quinhentas pessoas que foram impedidas de pular da Golden Gate no momento fatal, descobriu-se que apenas 6% delas acabaram se matando. Quase todo mundo aproveita uma segunda chance quando tem.

Mas na Coreia do Sul, onde há a maior taxa de suicídio dentre os países desenvolvidos há anos, a companhia de seguros Samsung propôs ao governo uma alternativa às barreiras. Ousadamente, em vez de construir muros ou colocar redes eles criaram uma instalação artística ao longo da ponte Mapo, de onde mais de cem pessoas haviam pulado nos últimos cinco anos. Painéis luminosos foram instalados ao longo da ponte, e enquanto os pedestres caminham por ela vão surgindo mensagens otimistas, piadas, palavras de conforto e imagens felizes (veja a campanha, premiada em Cannes). Esse incentivo a pensar melhor foi suficiente para derrubar em 85% as taxas de suicídio segundo as estatísticas mais recentes.

O suicídio é um ato extremo, e embora tenha relação com transtornos mentais, nem sempre é motivado por doença: o fim da esperança é a razão última por trás desse comportamento radical. Mas a experiência coreana vem mostrar que às vezes bastam algumas palavras para que a gente lembre que enquanto há vida pode haver esperança.

A última que morre
Mel Blaustein, & Anne Fleming (2009). Suicide From the Golden Gate Bridge Am J Psychiatry, 166 (10) DOI: 10.1176/appi.ajp.2009.09020296

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