Nossa frágil civilidade – preconceito e doenças de pele

A vida em sociedade civilizada só foi possível graças a nosso autocontrole. O uso da razão, ao nos libertar da obediência cega aos instintos, permitiu que conseguíssemos adiar gratificações, segurar a raiva, poupar para o futuro e, inclusive, superar preconceitos. Mas esse controle é tão frágil que, como aconselha o apóstolo Paulo, quem pensa estar em pé, cuide para que não caia.

Por isso não vou pelo caminho fácil de simplesmente criticar a atitude da empresa aérea Gol, que ontem, 19/08, discriminou o neto da coreógrafa Deborah Colcker, tentando impedir sua permanência em um vôo por conta de uma doença de pele se ele não apresentasse atestado. Prefiro arriscar entender – sem justificar – como a situação pode ter chegado ao ponto que chegou. Acho mais eficaz do que a mera pichação se quisermos trabalhar para que tais eventos não se repitam.

As doenças de pele são um dos problemas de saúde que mais geram preconceito, por dois motivos: primeiro porque são visíveis (há doenças mais estigmatizadas, mas que não são evidentes). Mas, além disso – e talvez mais importante – as suas lesões geram automaticamente uma sensação desagradável. Essa reação é instintiva e provavelmente está programada em nosso cérebro, afinal o comportamento de evitar contaminação é útil para a sobrevivência, e essas doenças trazem a impressão de algo contagioso. A Sociedade Brasileira de Dermatologia frequentemente faz campanhas de esclarecimento por conta disso, e numa bela iniciativa a médica e fotógrafa Régia de Sica retratou crianças com doenças como a do neto de Colcker, mostrando-as recebendo carinho e afeto de suas famílias, tentando usar a força da arte para combater o preconceito – a civilidade contra o instinto.

Mas o incidente na Gol, ao que parece, não teve um ponto de partida ilegítimo – é compreensível, e mesmo desejável, que que os tripulantes verifiquem se há a bordo pessoas que possam transmitir doenças aos outros passageiros. Há uma lei municipal em São Paulo, por exemplo, que diz ser “vedada qualquer forma de discriminação em virtude de (…) doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores”. Ou seja, se for contagiosa há que se tomar precauções. Tanto que em seu emocionado relato, Clara Colcker, mãe do garoto, conta não ter se incomodado quando perguntam qual o problema. A partir daí, contudo, a abordagem da empresa entrou numa escalada de hostilidade não rara de se ver em discussões que culminam em brigas: uma vez que se estabelecem “dois lados” cada um passa a querer “ganhar a briga” em vez de “resolver a situação”, mesmo sem se dar conta disso. Provavelmente de forma não intencional foram criados esses dois lados no avião – o da passageira e o da tripulação – e dali em diante, mesmo com sua explicação de que o menino não tinha problema para viajar, os funcionários passaram ficar mais hostis e exigir alguma “prova”, talvez para legitimar sua posição. Com isso a família toda, e o garoto principalmente, forma expostos a constrangimento e uma violência desnecessária.

Claro que a tripulação errou, e obviamente não pode fugir das consequências de seus atos. Mas não creio que todos os funcionários envolvidos sejam pessoas más – talvez se estivessem sentados como passageiros também achassem um absurdo o que estava acontecendo. Que seja para todos nós uma lição de como a nosso verniz de urbanidade é superficial, e de como devemos estar alerta para controlar nossos ímpetos e criticar nossas atitudes continuamente se quisermos nos manter civilizados.

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